a lágrima clara sobre a pele escura
deve ser efeito do vinho. 2000 e alguma coisa eu vi uma apresentação do itamar assumpção, ele já estava bem debilitado, deve ter sido uma das últimas apresentações dele. não sei o que pensar daquele show. quando eu era moleque, lá pelos anos 80, estava acostumado a ver a cena udigrudi de são paulo em lugares como madame satã, aeroanta, damaxoc. anos depois, ver a poesia sem facilidades de itamar me deixou deprimido. eu era um outro naquela noite.
no sábado último fui ver o documentário “daquele instante em diante” que fala sobre a carreira, não maldita, mas brasileira, de itamar, o músico, o artista, o poeta.
me deu um banzo do que fui e vi e do que sou e não sei. o documentário me informa que itamar gostava de plantas, de cozinhar e de ficar em casa. me fala que ele não dormia, de tanto que pensava, pensava, de tanto que a cabeça funcionava. eu, muitas vezes, não consigo me concentrar de tanto que penso, associo, sinto, me inquieto. escrevi, aos quinze anos, um poema chamado inquietação, sobre o tema. “tudo é inquietação”.
deve ser o vinho. veio a mente uma letra do itamar, que não é a minha canção predileta, e sim uma das letras que mais me comoveram:
“Quando estou longe
Quero ficar perto
Quando estou perto
Quero ficar dentro
Quando estou dentro
Quero ficar mudo
Quando estou mudo
Quero dizer tudo”
é isso, às vezes quero dizer tudo e não digo, e sinto muito e tudo, num contínuo de sensações. rimbaud escreveu:
“Pelas noites azuis de verão, irei em atalhos sob a lua,
Picotado pelos trigos, pisar a grama pequena:
Sonhador, sentirei nos pés o frescor que acena.
Deixarei o vento banhar minha cabeça nua.
Não falarei, não pensarei em nada sequer:
Mas me subirá na alma o amor soberano,
E irei longe, bem longe, feito um cigano,
Pela Natureza — feliz como se estivesse com uma mulher.”
voltando ao itamar, a grande revelação – que sempre me lembrou uma letra dos novos baianos – é a canção sei dos caminhos, que diz: Sei dos caminhos que chegam, sei dos que se afastam / Conheço como começa, como termina o que faço /Só não sei como chegar /Ao nosso próximo passo.
quando cheguei ao topo do vulcão em pucón, pensei que era uma experiência que todos deveriam ter. todos. mas, ao pé daquele morro, o que via era uma centena de famílias gordas, brancas, com o pai, a mãe, as crianças lindas e mimadas. em valparaíso, os punks mapuches se embebedavam na cidade que é a mais bela existência de rebeldia e vida, com seus cheiros e casas fora do esquadro. enquanto andava pela cidade eu pensava: todos deveriam estar aqui. e senti saudade…
o brasil é uma república federativa cheia de árvores e pessoas dizendo adeus, como disse oswald de andrade. dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz, retrucou maiakoviski. será que é o brasil ou a natureza? o samba, as capelas, as avenidas, os amigos na sala de espera. deve ser o vinho…
lembro que escrevi certa vez, e talvez seja a grande máquina do mundo que fiz e que condensei as minhas neuras:
e migro sempre à sentença da vida mera vivência do instante, aplauso liberto, banco, tigre, cegueira, campo, rima. venha comigo, mostrarei a engrenagem segunda – aquela mais adiante confunde-se com o ocaso. minha cicatriz revela a ti, a formidável face da pedra e do sal oceano encontrado, margem de ópio, longo encontro no abismo. pacífica tormenta na escuridão teus desvelos à meia luz –